9 de junho de 2010

Matéria sobre aborto

Uma em cada sete já abortou

A primeira pesquisa nacional sobre interrupção da gravidez mostra que 15% das brasileiras entre 18 e 39 anos já fizeram aborto. São mais de 5 milhões

Isabel Clemente e Naiara Lemos

Uma em cada sete mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos já fez aborto. Isso significa um grupo de cerca de 5,3 milhões de brasileiras, ou 15% da população no auge da idade reprodutiva. Quase a metade delas é casada ou vive com um companheiro, é católica ou evangélica, tem filhos. Esses números resultaram da primeira pesquisa nacional domiciliar sobre o aborto, cujos detalhes ÉPOCA publica com exclusividade. A outra metade de mulheres que abortaram segue um padrão igualmente comum. Entre elas, há ricas e pobres, casadas e solteiras, religiosas e agnósticas, com e sem filhos. Os pesquisadores descobriram também que, no Nordeste, o porcentual de mulheres que relataram já ter passado por isso é mais do que o dobro do encontrado no Sul. “A mulher que aborta não tem um perfil específico. Pode ser qualquer uma, de qualquer classe social”, diz o pesquisador Marcelo Medeiros, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e coautor da pesquisa.
A Pesquisa Nacional do Aborto foi feita em janeiro deste ano pelo Ibope e elaborada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, a Anis (que defende a legalização do aborto), em parceria com a UnB. A pergunta respondida foi “Você já fez aborto?”. Como aborto é crime no Brasil, alguns cuidados foram tomados para garantir sigilo às entrevistadas. As respostas, confidenciais, eram depositadas numa urna e questionários com dados sociais e demográficos preenchidos por entrevistadoras mulheres.


Foi com a garantia do anonimato que as mulheres confessaram o que ninguém até agora tinha conseguido medir com tamanha precisão. A sondagem envolveu 2.002 mulheres e descobriu que mais da metade das que abortaram (55%) ficaram internadas em decorrência de complicações. Isso sugere aos pesquisadores um problema de saude pública, uma vez que a internação supõe complicações médicas. A pesquisa é parte de uma extensa investigação sobre políticas de saúde reprodutiva no Brasil. Seus resultados são conservadores na medida em que avaliam o contingente de mulheres que já abortaram, não o número de abortos realizados no país (é possível que uma mesma mulher faça mais de um aborto). A investigação poderá ajudar a definir políticas públicas não só para reduzir a prática, mas para impedir que as mulheres sofram com suas sequelas.
A investigação trouxe informações sobre os métodos usados para o aborto. Mais da metade das mulheres conta ter recorrido a remédios. Como só existe no Brasil um medicamento registrado com essa finalidade, cujo uso está restrito a hospitais, a procura por abortivos é um dos pilares do silencioso mercado de medicamentos contrabandeados. O remédio abortivo mais comum tem como princípio ativo a substância misoprostol, mais conhecido por Cytotec. Seu registro foi suspenso no Brasil em 2005, a pedido do laboratório, informa a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Desde então, qualquer amostra de Cytotec encontrada no país é contrabando. Das 63 blitze realizadas pela Anvisa no ano passado, sete localizaram caixas de Cytotec. Vender medicamento sem registro no Brasil é infração gravíssima e crime hediondo, segundo a Anvisa.

Conseguiu depois de três tentativas



“Diante da gravidez, fui a parte fria. Ele ficou mais desesperado, andava de um lado para o outro, chorando. Na minha cabeça, só passava o meu pai e como resolver, se eu ia ter o filho ou não. No mesmo dia, decidi abortar. Comprei quatro pílulas de Cytotec. Tomei duas e apliquei duas no colo do útero. Sangrei, fui ao hospital e o feto continuava lá. Uma semana depois, tentamos de novo e nada. No final do mês, íamos viajar para o exterior e pensamos em usar os US$ 900 que tínhamos para abortar lá. Mas, antes, fizemos uma terceira tentativa com Cytotec, e eu abortei. Às vezes me dá uma sensação ruim, mas eu tento esquecer”
(Mariana, nome fictício, 19 anos, estudante)

Em um trabalho paralelo, a antropóloga Débora Diniz, coautora da Pesquisa Nacional de Aborto, teve acesso a investigações do Ministério Público do Distrito Federal sobre o mercado negro de medicamentos. Ela diz que os abortivos circulam nas mãos de fornecedores especializados em medicamentos para o corpo. s “São vendedores de anabolizantes, pílulas para emagrecer ou voltadas para disfunção erétil”, diz ela. “O traficante não é um sujeito perigoso. Ele faz parte do universo da mulher.” Se quase metade das mulheres usou misoprostol, como sugere a pesquisa, como fez a outra metade que abortou? “Minha suspeita é que o mercado de clínicas particulares é gigantesco”, afirma Débora. Essa desconfiança se sustenta por um número captado na pesquisa: 37% das mulheres abortaram sem tomar remédio e sem ficar internadas. Teriam tido acesso à supervisão médica?
A pesquisa rompe alguns mitos sobre o tema, na avaliação dos autores. Primeiro, que a prática seria mais comum entre as mulheres pobres. Os números mostram que o aborto se distribui de forma equilibrada em todas as classes sociais. O segundo mito, reforçado por movimentos religiosos, é que o aborto só seria feito por mulheres que não estão integradas a uma família. Também isso se mostrou falso.“Essa mulher sabe o que é uma família e frequenta igrejas e templos”, diz Débora.
O Código Penal brasileiro admite o aborto em apenas dois casos: estupro e risco de morte da mãe. Na semana passada, a Comissão de Seguridade Social da Câmara aprovou um projeto conhecido como “estatuto do nascituro”. Se virar lei como está, esse projeto pode tornar mais difícil o aborto nas circunstâncias permitidas por lei, porque protege legalmente o embrião mesmo in vitro, antes da transferência para o útero materno. Determina ainda que o Estado arque com os custos de vida da criança fruto de um estupro, se a mulher não tiver condições de mantê-la, até que o pai seja responsabilizado pela pensão ou ainda até que essa criança seja adotada. Relatora do projeto de lei, a deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) afirma que a mulher estuprada tem direito a uma indenização porque é vítima de violência, e segurança é obrigação do Estado. “É preciso tratar o diferente com políticas diferentes”, diz Solange.
Seu projeto, porém, é criticado pelos defensores da descriminalização do aborto. Nas palavras do deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS), ele “viola a dignidade das mulheres porque as transforma em simples meio para garantir direitos de um terceiro em potencial”. Para a deputada federal Rita Camata (PSDB-ES), a iniciativa cria a “bolsa-estupro”. “O bebê fruto da violência tem a ajuda do Estado, o bebê pobre, humilde, não?”, diz ela. A socióloga Elizabeth Saar, coordenadora da Área de Saúde da Secretaria de Políticas para as Mulheres, afirma que o projeto inviabiliza alguns exames pré-natais.
O aborto é um tema que mexe com convicções religiosas, filosóficas e científicas. A CNBB reafirmou, há dez dias, sua posição contrária à prática e à descriminalização do aborto, por considerá-las “contra o princípio de defesa da vida e da família”. Para 68% dos brasileiros, a lei deve continuar como está, segundo uma pesquisa de 2008 do instituto Datafolha. Apenas 11% defendem a descriminalização. Mas há uma realidade concreta: mais de 5 milhões de brasileiras já abortaram. O que fazer nesses casos? “É inviável continuar tratando todas elas como criminosas”, diz Marcelo Medeiros, da UnB. “Há um evidente problema de saúde pública em larga escala.”
Até hoje, os debates sobre o aborto eram pautados mais por convicções pessoais que por estatísticas confiáveis. Agora, legisladores e autoridades terão à mão informações sólidas sobre o universo do aborto, que afeta milhões de brasileiras e suas famílias. “Precisamos acolher essas mulheres na rede pública de saúde”, diz o médico Adson França, assessor especial do Ministério da Saúde.

A mãe era contra, a avó ajudou


“Eu não ficava menstruada. Não tinha enjoo, não tinha nada, só um sono absurdo. Fiz o exame de urina e deu positivo. Aí, o mundo acabou, né? Eu não fazia faculdade, tinha um emprego que detestava, morava com a minha avó e nem gostava do cara. Era um amigo, uma aventura. Pensava: ‘Meu! O que eu vou fazer agora? Como vou contar para as pessoas?’. Minha mãe quis que eu desse o filho para ela criar. Minha avó falou: ‘De jeito nenhum ter filho com 22 anos! Você vai estragar a sua vida!’. Ela me ajudou a procurar a clínica e pagou tudo. Aquele aborto de 1986 nunca me abandonou”
(Teresa, nome fictício, 46 anos, professora)

Matéria retirada da Revista Época 23/05/2010
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI142249-15223,00.html

20 de abril de 2010

I Feira deCultura Libertária



I Feira de Cultura Libertária

Programação:
15h00min
Abertura com a feira de livros libertários e exposição sobre o “1ª de Maio, dia de luta”
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16h00min
“Relatos de existências das lutas sociais”
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17h00min
Exibições dos curtas
“Construção”
Maria Gutierrez – Brasil – 2006 – 8´30´
Baseado na música homônima de Chico Buarque, retrata o cotidiano dos trabalhadores da construção civil
“Dekassegui”
Roberto Maxwell – Brasil – 2006 – 11´
Cotidiano de um brasileiro descendente de japoneses que partiu para trabalhar no Japão
“Leviatã”
Camilo Cavalcante – Brasil – 1999 – 21´
A morte de um nordestino em São Paulo
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18h00min
Recital de poesias com Edgar Schatazamann
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Movimentos sociais, entidades e grupos confirmados
DCE - Diretório Central dos Estudantes – UNIVILLE
CALHEV - Centro Acadêmico Livre de História “Eunaldo Verdi” – CALHEV
GEPAF - Grupo de estudos, políticas e ações feministas
CMI - Centro de Mídia Independente
GEIPA - Grupo de Estudos das Idéias e Práticas Anarquistas
Livraria Libertária ´36
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Acesse e informe-se:
http://pro-cao.blogspot.com/2010/04/i-feira-de-cultura-libertaria.html

23 de fevereiro de 2010

Não à lei anti-gay.

Pedimos a colaboração de todas/os, esta é uma petição que tem como objetivo, frear uma proposta de lei anti-gay. Está lei permite condenar homossexuais da Unganda a prisão e a pena de morte.

Para a assinar petição e ter mais informação acesse o link a baixo.

https://secure.avaaz.org/po/uganda_rights_3/97.php?cl_taf_sign=6ai2LlxC

10 de fevereiro de 2010

MORAL DIVINA OU INFERNAL?

Quando a mulher e o homem arraigados de (pré)conceitos machistas, tomam a iniciativa de oprimir outras mulheres, além de homens que fujam a norma, ou então transformam seus preconceitos em regra ou lei por acreditar que é a coisa certa a se fazer, visando a “boa” construção da comunidade, o que acontece é que se vê setores dominantes da sociedade marginalizando e criminalizando mulheres na prostituição, como se partissem do pressuposto de liberdade absoluta para se escolher a profissão. Parece fácil aceitar a violência contra elas nas ruas por meio dos policiais ou transeuntes, como quando no Rio de Janeiro um grupo de jovens, na maioria universitários, tentou justificar o espancamento contra uma empregada doméstica, que aguardava de madrugada a sua condução de casa ao trabalho, dizendo que o fizeram por a confundiram com uma prostituta! Partindo do princípio de que isso diminuiria a gravidade da ação, já que “raciocinaram” através de um comportamento socialmente aceito que é a brutalidade contra mulheres marginalizadas, tomamos um fôlego para rapidamente analisarmos tal realidade, e nos vem a pergunta já desgastada: em que Mundo vivemos?

É a mesma pergunta que se têm ao ver o vídeo em que mulheres afegãs são espancadas e despidas na Índia em praça pública, com a justificação dos discursos morais e religiosos. Percebamos que, de forma geral, para o povo afegão a nudez é absolutamente vergonhosa, não nos cabendo discutir aqui os motivos dessa vergonha. Essa mesma nudez foi utilizada por estadunidenses contra presos políticos afegãos nas prisões em Guantánamo, os ameaçando e os torturando, além de tudo, psicologicamente. Os dois casos, das mulheres e dos presos políticos, são caracterizados como tortura injustificada (como qualquer outra tortura), além de observarmos interesses econômicos dissimulados e trajados de uma defesa, como já dito, moral e religiosa, bem como ironicamente por parte dos EUA, uma defesa da liberdade. Na verdade o que vemos é a opressão de pessoas segundo interesses econômicos ocultados no discurso, mas muito claros na prática, quando esse ato na Índia acontece para expulsar mulheres estrangeiras já marcadas por motivos de ocupação territorial e empregatícia, assim como já é bastante conhecido o motivo das investidas estadunidenses no Oriente Médio, ou seja, o petróleo. E isso sem mencionar a violência que se dá contra as brasileiras e brasileiros, que em terras estrangeiras na busca por melhores condições de vida, acabam por se entregar a prostituição.

Tudo graças à imposição de moralidades sociais e religiosas, que nos faz, por fim, acreditar que quem vive no paraíso dita as regras do inferno.

12 de novembro de 2009

Moção de Apoio a FAG - Federação Anarquista Gaúcha

No dia 29 de outubro de 2009, ocorreu mais um ato de afronta aos Movimentos Sociais brasileiros. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul, a mando da governadora Yeda Crusius (PSDB), invadiu a sede da FAG (Federação Anarquista Gaúcha), apreendendo documentos e equipamentos, além de abrir processos criminais por injúria, calúnia e difamação. A justificativa de tal ato foi a produção de materiais pela FAG, nos quais a governadora é responsabilizada junto à Brigada Militar (Polícia Militar Estadual) pelo assassinato do integrante do MST, Eltom Brum da Silva bem como reivindicando a saída da governadora e denunciando as medidas políticas de cunho neoliberal do Banco Mundial. Foi procurado também identificar o responsável pelo site www.vermelhoenegro.org, expressando uma ameaça à liberdade de expressão.

Nós do Grupo de Estudos, Políticas e Ações Feministas (GEPAF) viemos através desta manifestar nossa solidariedade à FAG, repudiando as atitudes da governadora do estado do Rio Grande do Sul, representante de todo o aparato governamental.Acreditamos que não podemos nos calar frente à atitudes criminosas desta natureza que ferem direitos democráticos básicos, afirmando que essa luta também é nossa.

Com esta carta queremos pesar as justas reivindicações de fim aos processos judiciais e a devolução de todos os bens apreendidos da FAG como a garantia das liberdades democráticas que foram violadas pelo Estado.

Não tá morto quem peleia!

6 de novembro de 2009

A turba da Uniban, Contardo Calligaris

As turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio


NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.


CONTARDO CALLIGARIS
Folha de S. Paulo - Ilustrada - 5/11